Aquilo que me inspira, levo para casa.




10.1.13

Transversalidade


Tenho 15 ou 16 anos e estou sentada no chão da sala. Por baixo de mim sinto a alcatifa. Ao meu lado espalham-se discos de 45 e 33 rotações prontos a serem escolhidos para o toque da agulha.  Nos meus ouvidos pousam uns headphones que vibram ao som da música.  O meu pai lê o jornal sentado na sua cadeira. Provavelmente conseguirá ouvir algum resquício do som que foge em decibéis elevados mas ignora-me a mim e aos esgares que faço enquanto mentalmente soletro a letra da música.  Oiço as faixas que mais gosto em modo repeat sem nunca cansar os meus receptores auditivos. Imagino-me nos mais diferentes ambientes a dançar aquele mesmo som e projecto toda uma série de situações ficcionadas. Neste momento, sou eu e a música que enchemos o meu mundo. E bastamos. Nada mais importa porque o resto é um mero excedente.

Hoje, duas décadas distam da recordação narrada. Já não tenho discos de vinyl, o gira-discos repousa em descanso na garagem e há muito que não piso alcatifa. Do meu pai, sentado na sua cadeira, somente guardo lembranças. Mas a música ainda me acompanha. O seu efeito simbiótico permanece. Os headphones continuam a merecer destaque na minha vocação hedonista.

Mudam-se os tempos mas a essência fica.

9.1.13

O segredo de José Luís Peixoto



Já não constitui um segredo para mim o conteúdo do mais recente livro de José Luís Peixoto (JLP). Escrito num estilo mais leve que o seu registo habitual, o livro narra a passagem do seu autor pela Coreia do Norte, o país mais fechado do mundo que, por isso, encerra consigo todo um sentimento misto de curiosidade e antipatia que em muito contribui para a sua cotação de fascínio. Habituados que estamos a ter notícias da Coreia do Norte provindas essencialmente da comunicação social, que ainda não há muito tempo nos encheu de imagens relacionadas com a morte do seu “Querido Líder”, ler histórias contadas, na primeira pessoa, por quem pisou aquele território, embora o próprio admita que a realidade que lhe mostraram foi tingida de algum fingimento, é motivo para uma leitura cheia de interesse.

O tema é, pois, uma garantia de sucesso. À descrição da viagem, o autor soube juntar uma, bem doseada, porção de percepções pessoais que amenizam a dureza da realidade descrita e nos fazem rir de pormenores que só o ser humano consegue protagonizar.

Mas eu estou certa que a maior contribuição desta viagem, para a escrita do JLP, não ficou, de todo, restringida a este livro. Este será porventura uma pequena demonstração da riqueza interior que esta experiência lhe terá dado. Descreveu-o demasiado restringido aos factos, demasiado próximo ao tempo em que tudo aconteceu.  O distanciamento mental necessário para uma abordagem mais introspectiva estará, muito provavelmente, a fermentar. Aguardo, por isso, com expectativa, embora o fizesse de qualquer forma, as suas próximas escritas, estando certa que nelas conseguirei vislumbrar, de forma mais ou menos exposta, as influências despoletadas por esta viagem que apesar de no destino ter o país mais fechado do mundo, com certeza lhe terá aberto muitas portas do seu mundo interior.

7.1.13

Viver numa bolha

Há pessoas que vivem em bolhas. Fechadas, herméticas, asfixiantes. O único ar que lá entra é aquele que lhes permite ter os pulmões incólumes. Tudo o resto é irrespirável, invisível, indiferente.

Causa-me alguma impressão esta tendência de algumas pessoas em desviar o olhar daquilo que lhes é alheio, de proclamarem a sua indiferença perante o mundo e a vida de terceiros desde que dentro do seu casulo exista o oxigénio que lhes permita viver.

Numa altura em que um a um somos chamados à realidade do desemprego, da desigualdade, da pobreza, de toda a espécie de dificuldades mais ou menos requintadas, ainda há quem somente se aperceba das maleitas do mundo, quando o seu nome é ouvido, ainda que os de muitos outros já tenham sido chamados antes. As situações só se agudizam, só são apelidadas de urgentes, só incitam à acção quando os atingem, quando sentem que a bolha vacila e o ar começa a evaporar-se por uma qualquer fresta que entretanto se instalou.

Não sei como lidar com pessoas assim. Fico sem jeito tamanha a incredulidade que me atinge, incapaz de convencer as minhas próprias palavras a chamar a atenção de algo tão óbvio, sem saber como fazer para controlar a minha vontade de lhes mostrar que o egoísmo tem limites.




Como não podia deixar de ser

...o primeiro post do ano merece um traçar de objectivos para o recém chegado vinte treze. Nada de grandes metas, somente anotações de pequenas coisas às quais atribuo alguma graça e que, de alguma forma, podem contribuir para o meu bem-estar. Na sua escolha não estiveram critérios de sustentabilidade, razoabilidade ou outras desses (boring!) aspectos que norteiam, usualmente, as escolhas ponderadas. Tão somente dei ouvidos ao meu gostar, ao meu click interior, à facilidade de ver aparecer o meu sorriso.
Este é um post work in progress.

# 1- Não deixar que falte granola na minha despensa. 


# 2- Fotografar o meu urso de peluche- ou outros objectos amados- 

Ideia inspirada daqui.

# 3- Deixar-me inspirar por coisas bonitas


Como o são, as fotos de Bertil Nilsson.


# 4- Documentar o meu mundo, para não tropeçar no esquecimento



# 5- Ler. Ler. Ler. Escrever. Escrever. Escrever






24.9.12

As conversas dos outros



No outro dia tomei o pequeno-almoço na esplanada de um café perto da minha casa. No pouco tempo em que ocupei a cadeira, enquanto sorvia a meia de leite e engolia o pão de mistura fina com queijo, deu para ouvir as conversas lançadas nas mesas do lado. Já houve tempo em que falar do tempo, dos filhos, e de outras trivialidades da vida quotidiana, ocupavam as manchetes das conversas de café. Agora os temas são outros, e sempre os mesmos. A crise, a precariedade no emprego, a falta deste. Sempre, sem tirar nem pôr, os mesmos argumentos, os mesmíssimos acontecimentos, as igualíssimas preocupações, apesar dos diferentes interlocutores. Já não há originalidade nas conversas de café quando o que nos une é um sentimento generalizado de preocupação. Os salários são debatidos à mesa, as inequidades são partilhadas enquanto se bebe a bica, o desemprego de fulano e beltrano é tema para especulações e teorias. Mudam-se os corpos e as conversas ficam. Tornámo-nos um povo de uma só conversa e abandonámos o ecletismo de temas. Tudo isto é triste e assustador. A banalização das conversas de café é um excelente indicador do estado da nação, um barómetro da saúde da sociedade. Esperemos que haja cura. 

4.9.12

Prefácio

Vivia-se o séc. XIX do milénio anterior a este, quando nasceu uma casa portuguesa. Poderia apelidá-la de simples se não se desse o caso do adjectivo genuína lhe ajustar ainda melhor. Era uma casa alta e esguia, com paredes tortas, chão de madeira gasta e despojada de quaisquer luxos. Tinha somente duas janelas, uma na cozinha, virada para o rio, que muito sofria com as cócegas provocadas pelas gaivotas que nela roçavam – a ponto de, por vezes, não se ouvir mais nada que um gargalhar incessante – e outra na sala, virada para a avenida de árvores sumptuosas que lhe davam um ar majestoso e a tornavam tão vaidosa que os vasos que a ornamentavam viam-se obrigados a estar sempre floridos. Para além das duas janelas, de uma cozinha e de uma sala, tinha quatro quartos, dois eram pequenos e os outros dois eram pequenos no superlativo absoluto. Todos sem janela, a sofrerem de uma interioridade arquitectónica que os poderia ter tornado pouco dados à simpatia não fosse o facto de quem lá pernoitava ser tão alegre que os tornou aprazíveis. Em todos eles, as paredes sofriam de hematomas provocados pelos pregos ferrugentos que sustentavam retratos kitsch de Jesus Cristo e da Virgem Maria.


A casa desta história era habitada por um casal que teve descendência suficiente para perfazer os dedos de duas mãos e ainda ter de se acrescentar dois dedos do pé. A prole que lá nasceu e cresceu foi, com o correr dos anos, saindo para espaços seus e a casa desta história, outrora amontoada de vida humana, foi-se esvaziando até somente resistirem três filhas que apenas a abandonaram quando, com cerca de 90 anos, se viram forçadas a ir para outro local, vulgarmente apelidado de paraíso, onde, segundo constava, lhes estariam reservados os melhores quartos com janela do éden.


Durante a sua (con)vivência, as três irmãs trataram de dividir a casa à sua maneira, não havendo qualquer parte desta que fosse propriedade comum, excepção feita à única torneira que por lá deitava água. Foram divididos os quartos, os armários, as prateleiras, os copos, os pratos, os tachos, os fogões, as zonas das mesas, as cadeiras, as cordas, as molas da roupa, os alguidares, os detergentes, os utensílios de limpeza, os alimentos, as plantas e tudo o mais que pudesse existir numa casa. Esta divisão, que testemunhava uma vida em comunidade sem partilha de objectos materiais, foi o ideal encontrado para uma coexistência sem sobressaltos, onde cada uma geria o que lhe pertencia, conforme podia, e sem se meter na vida alheia. Cada uma das irmãs cozinhava no seu fogão a sua própria refeição, sentava-se na sua cadeira, na sua ponta da mesa, comia na sua própria loiça que seguidamente lavava nos seus próprios alguidares. A vida de cada uma não se metia com a das outras.


Como neta de uma das três irmãs, cresci nesta casa durante a minha infância. A minha ingenuidade infantil não me permitia, na altura, aperceber devidamente da peculiaridade daquele modo de estar. Tinha perante mim a prova de que a cumplicidade entre várias pessoas pode conhecer o seu expoente máximo sem ser necessário compartilhar algo de físico. Feliz por me encontrar entre aquelas paredes (o quarto da minha avó era o maior de todos e o único com dois quadros kitsch) só a idade adulta me permitiu reconhecer que naquele lar o castiço e o genuíno se sentavam connosco à mesa.



Percebo agora que nesta casa apenas se partilhava o imaterial, o lado espiritual, aquele que não se vê mas somente se experiencia tal como o são as conversas e os risos, os jogos e as brincadeiras, os afectos e as gargalhadas, as lágrimas e os abraços, as múltiplas e inesgotáveis aprendizagens. No que diz respeito a amor, cumplicidade, respeito e felicidade aquela casa nunca foi atípica. Em tudo o resto abundam estórias e relatos que se aproximam da excentricidade mas que me fazem recordar a infância como algo pertencente a um mundo mágico que amadureceu com o crescimento mas o qual não me importava de revisitar.

3.9.12

Dos semáforos e de outras paragens

Naquele momento partilhamos os minutos de espera que antecedem a mudança do sinal. Queremos o verde que nos permita dar liberdade aos nossos ímpetos. Até lá, resta-nos encarar o vermelho enquanto balançamos o corpo ao som da música emitida pela rádio ou pela selecção de mp3 que faz parte do conteúdo de coisas que jamais largamos. Um retoque no batom, uma passa no cigarro, o ajeitar do vestido. São estes os pequenos tiques que nos distraem do compasso da espera. Não nos conhecemos mas naquele momento partilhamos o espaço. Uma via de asfalto que bifurcará adiante e que (quem sabe?) nos desviará para os destinos que são os nossos. Naquele instante vivemos, sem que disso nos apercebamos, uma cumplicidade de transeunte. Tu não reparas em mim mas eu reparo que tens as unhas pintadas de um vermelho cereja (quando tirar o verniz coral que agora tenho, vou pintar dessa cor), que tens o cabelo apanhado desordenadamente e que o cigarro te acalma da pressa que levas. Eu ligo o ar condicionado e deixo que a imaginação me guie para o que será a tua vida para além desta paragem de carro. Alguém poderá estar a fazer o mesmo comigo mas eu não reparo. Reparei em ti porque divides comigo a dianteira.
O sinal abre e tu avanças.
Eu avanço também.
Sigo em frente mas tu viras à direita.
Naquele momento deixámos de partilhar a direcção.
Em breve minutos estarei no trabalho. Já não penso sequer em ti.